domingo, 5 de julho de 2009

Fezes envenenam o Velho Chico

Jarbas Oliveira*
Contador, escritor e pós-graduando em Jornalismo Político.
Escrito em abril de 2008.

O leitor, com todo o direito, pode até pensar que o título é sensacionalista e apelativo. Eu afirmo que é apelativo, não no sentido pejorativo, mas de manifesto. Por isso, desde já, peço que me desculpem, mas, às vezes, torna-se necessário utilizarmos palavras agressivas, para que os comandantes possam despertar-se.
Ontem, à noite, na faculdade, o jornalista e colega, Luiz Ribeiro (Estado de Minas) entregou-me uma parte do seu jornal, Caderno Gerais, página 25, onde estava publicada uma matéria de sua autoria, em parceria com a jornalista Cristiana Andrade, e me pediu que lesse a reportagem “Alga Contamina o São Francisco”.
Li e reli, até pensei em não acreditar. Luiz! Achei a sua reportagem apavorante. Mas, para nossa desgraça, ela é real. É a mais pura verdade. O Velho Chico, da escritora Glória Mameluque e de todos nós, está envenenado. O nome científico do veneno (algas azuis) é “cianobactérias”. A origem: Fezes - metropolitanas belorizontinas e de outros 240 municípios situados na bacia mineira do Velho Chico.
É, Velho Chico, jogaram tantas fezes no seu afluente Rio das Velhas, que ele se tornou o seu maior poluidor.
Então é ele o culpado?
Não! Claro que não. O pobre coitado também é vítima, foi igualmente envenenado.
Lembra, Velho Chico, daqueles homens, sapecados pelo sol, que vivem canoando em suas águas, em busca dos já escassos surubis e dourados? Estão prestes a encerrar suas carreiras. Também, quem vai querer peixe contaminado?
E, tem mais, Velho Chico! Têm gentes que tomaram banho nas suas barrancas, beberam das suas águas e comeram dos seus pescados e agora estão com uma diarréia danada, vomitando, coçando e doente da cabeça. Pobres coitados, também! E nem têm como remediar.
É, Velho Chico, não faz dez dias, viajávamos com destino a Uberaba e ao atravessar a ponte sobre você, enchi os peitos e orgulhosamente gritei para o meu neto, Luca Cauet, de cinco anos: Olha lá, “chico lé!” – um dos apelidos carinhosos que eu avô costumo chamar os meus netos – Tá vendo esse rio bonitão? Ele se chama São Francisco, nasce no nosso estado - Minas Gerais e, é um dos maiores rio do nosso Brasil. Um dia, vou trazer você para passear nele, de vapor.
Fiz uma promessa ao meu neto, Velho Chico! Mas não sei se dou conta de cumpri-la, principalmente agora que fiquei sabendo que estás envenenado.
Mas, agüenta o tranco aí, Velho Chico. Existe, por ai, um tal de PAC Federal dizendo que vai investir bilhões e bilhões... em você. Querem até tirá-lo do seu leito maternal. A princípio sou contra, mas quem sabe, assim lhe sobra algum para fazer o seu tratamento.
Já, o Governo Estadual, Velho Chico, informou que a Coordenadoria Estadual de Defesa Civil – CEDEC e outros órgãos estão de prontidão para o caso de ocorrências emergenciais que suas águas contaminadas possam causar.
Ai, eu pergunto, Velho Chico. Pergunto não! Interrogo, gritando em altos brados! O seu caso, o do Rio das Velhas, Verde Grande e de tantos outros rios, não é emergencial?
Não?
Acordem comandantes! Acordem! E salvem os nossos rios enquanto ainda é tempo.

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