domingo, 5 de julho de 2009

Reminiscências da infância.

“Mangas Amargas”

Jarbas Oliveira.

Se um dia, eu resolvesse escrever uma pequena parte das histórias do meu irmão Jurandir, acabaria escrevendo um livro. Enquanto isso não acontece, atenho-me a escrever uma breve passagem que me vem à lembrança.
Jurandir, meu irmão mais velho, desde a sua infância em Taiobeiras, cidade desse rincão norte mineiro, sempre foi visto como um sujeito traquino, cheio de malandragem, a ponto de protagonizar as mais absurdas peripécias. Tão absurdas que ele mesmo é capaz de dizer: “Não está vendo que isso é mentira!” Esta história, porém, “falo de cadeira” porque também fiz parte dela, não como protagonista, mas como vítima.
Morávamos na rua Bocaiúva, bem próxima da Praça Coronel Ribeiro.Lá em casa, somos dez irmãos, oito naturais: duas mulheres e seis homens, uma escadinha, ou seja, um nem bem aprendia a andar e já nascia outro; e duas irmãs adotivas – Flora e Aninha. Flora chegou aos sete anos, pouco mais que Jurandir. Aninha chegou, com apenas um ano de idade, quando eu, o caçula, ainda arrastava pelo chão. O meu pai, então caminhoneiro, andava vagando pelas estradas da vida, em busca do pão de cada dia.
Certa feita, numa dessas viagens, a minha mãe, Dona Olívia, foi também. Flora, já com seus 17 anos, ficou tomando conta da casa. Coitados de nós!
Nós, os mais novos. É claro! Por quê? Porque, simplesmente, ficamos à mercê dos maldosos e inconseqüentes atos do “Jura – Juriti – Caolho” (apelidos que utilizávamos para vingar dele). Ufa! Me desabafei!
Era por volta das 9h de uma manhã de janeiro dos idos 1958, tempo de chuva, mas não chovia quando o garoto Dedé, próximos dos treze anos, irmão natural de Flora, chegou lá em casa, montado em uma garbosa bicicleta; eu e meu irmão Josimar, – com sete e oito anos, respectivamente, aos gritos, corremos, ao encontro dele: Dedé... Dedé..., dá uma volta de bicicleta com a gente!
– Não, agora não posso, eu estou indo ali buscar umas mangas, passei aqui só para pegar um saco de pano; cadê flora? Chama ela lá para mim.
Flora lhe arranjou dois sacos vazios e perguntou-lhe:
– Para onde você vai com esses sacos Dedé?
– Ah! Eu vou à chácara de João Botelho.
– E, onde fica isso?
– Fica perto do cemitério.
Interrompendo o diálogo, eu e Josimar gritamos, insistentemente: Dedé! Deixa a gente ir com você? Deixa Dedé! Deixa.
– Se Flora deixar, eu levo.
A pobre coitada, confiante no irmão, apenas perguntou:
– A que horas você volta?
– Ah! Eu volto logo, venho antes do almoço.
– Sendo assim, está bem. Podem ir, mas não demorem.
– Então vamos meninos! Mas vão ter que me obedecer.
Descalços, vestíamos apenas um calção curraleiro (criança não usava cueca) e uma camisa de tecido de algodão; Josimar montou na garupa e eu no cano do quadro da bicicleta. Lá fomos nós, deslumbrados e sorridentes, rumo à nossa primeira aventura longe de casa!
As ruas, ainda de terra, era uma lama só. Para subir a ladeira do Bom-Fim tivemos que descer da bicicleta, pois Dedé não agüentou subi-la pedalando.
Não dei cinco passos e escorreguei; caí de barriga no chão e sai deslizando ladeira abaixo; lambuzei-me todo de lama, mas não chorei. Dedé me levantou e pela mão puxou-me ladeira acima. Quando vencemos a danada, a lama, agarrada no solado dos nossos pés, parecia pesar uns dez quilos.
Montamos novamente e, não demorou muito, chegamos ao nosso destino: Uma chácara à beira da estrada – hoje, bairro João Botelho –, com dezenas de pés de mangas de várias qualidades; Dedé trepava nas mangueiras e derrubava as mangas, enquanto nós ficávamos embaixo, catando e recolhendo-as aos sacos, ao mesmo tempo em que saboreávamos outras. As mãos, pernas, rosto e a roupa era um “leguedê” só; lama e sumo de manga se misturavam dando maior sabor àquela aventura.
Três horas da tarde, o almoço já era..., e começa a chover; Dedé desce rapidamente do pé de manga, acomoda e amarra os dois sacos na garupa da bicicleta, já não há mais espaço para Josimar, o jeito foi partilharmos o pequeno espaço no cano da bicha, – como diz o ditado: “Para descer todo santo ajuda” – Dedé nem precisou pedalar, desceu ladeira abaixo e logo estávamos em casa, ensopados e enlameados.
Neste instante começou o nosso sacrilégio. Sabe quem nos aguardava, sentado no degrau, à porta de casa? Dou um doce para quem acertar!
Era ele mesmo. “Jura – Juriti – caolho” Ufa! Desabafei de novo! – minha irmã Nair, que é psicóloga, certamente diagnosticaria: “Trauma de Infância”.
Entramos correndo, mas não adiantou. Pelo menos um cascudo alcançou nossas cabeças. Jura era “expert” nesse assunto. Dedé descarregou, na sala de visita, um dos sacos de manga que nos pertencia e, não esperou o resultado, deu no pé.
Jurandir foi à nossa procura, mas já estávamos trancados no banheiro, onde Flora, caprichosamente, nos banhava, enquanto chorávamos copiosamente.
Quando saímos, o “sarcástico caolho” nos aguardava à porta. Flora interveio a nosso favor, mas não adiantou, a coitada levou logo um “chega-prá-lá”.
Eu e Josimar fomos arrastados pelas orelhas até a sala de visita, lá levamos outros safanões ao pé do ouvido que nos causou zumbidos e visões estrelares; os coques pareciam perfurar nossas cabeças e misturar os miolos. Cansado de nos bater, disse:
– Não se atrevam a se mexer daí!
Saiu, apressadamente, rumo à cozinha e, retornando, abaixou-se no centro da sala, fez quatro amontoados de sementes de milho, formando um quadrado, e nos obrigou a ajoelhar sobre os mesmos, com os braços abertos e um de frente para o outro.
Não bastou. Pegou o nosso saco de mangas, escolheu umas vinte melhores, colocou-as numa travessa e jogou as outras numa fossa que havia no fundo do quintal da casa; sentou-se em uma cadeira ao nosso lado, com travessa e faca na mão e, enquanto nos olhava e sorria com desdém, calmamente, descascava e chupava nossas doces “amargas” mangas. Só depois de devorá-las, uma a uma, livrou-nos do castigo.
Confesso que eu lhe desejei uma tremenda dor de barriga, mas não sei se o meu desejo se realizou. Quanto ao suposto diagnóstico, afirmo que não se trata de “Trauma de Infância”, mas de lembranças, ainda que amargas, inesquecíveis, que não deixaram qualquer resquício ou mágoa.

Nenhum comentário:

Postar um comentário