quinta-feira, 30 de janeiro de 2014
UMA VIAGEM PARA FICAR NA HISTÓRIA
UMA VIAGEM PARA FICAR NA HISTÓRIA
Jarbas Oliveira
Quando, ha uns quatro meses atrás, Ana Maria e eu começamos a planejar nossas férias, que costumamos curtir no mês de janeiro, eu disse a ela que dentre os 26 estados brasileiros e o Distrito Federal, só nos faltavam ainda conhecer, o Acre, Amapá, Espírito Santo, Mato Grosso do Sul, Roraima e Rondônia e, para estas férias, manifestei o meu desejo de conhecer o Estado do Espírito Santo, onde poderia rever alguns parentes, da parte do meu pai, que lá residem.
Ana Maria, além de excelente ESPOSA, tem se revelado também uma eficiente Secretária de Planejamento, não perdeu tempo e começou a pesquisar na internet as coisas interessantes do Estado do Espírito Santo.
Alguns dias depois, numa tarde de Sábado, relaxadamente no sofá, estava eu assistindo um predileto “bang bang”, quando Ana Maria, sem qualquer parcimônia, me desalojou, sentou-se ao meu lado e foi logo dizendo − Vamos para Vila Velha! Mas é de “trem de ferro”, e vamos levar os nossos netos Luca Cauet (11) e Samuel (10). E completou: − Tem uma viagem de trem que sai de Belo Horizonte às 7h e vai até Vitória, chegando por volta das 22h, tem até ar condicionado, restaurante, lanchonete e segundo eu li, na mídia eletrônica, a viagem é maravilhosa, os meninos vão adorar! Se você concordar, a passagem começa a ser vendida com 60 dias de antecedência e é preciso reservar hotel e passagens de avião até Belo Horizonte e, também, para a volta até Montes Claros. Concorda? Sem questionar sequer o desalojamento e a exibição cinematográfica, eu lhe disse que se estava bom para ela, para mim estava ótimo. Marido bom é assim, concorda com tudo.
Na Segunda-Feira, hora do almoço, estávamos todos reunidos à mesa (nós, nossos filhos, noras e netos) – vale ressaltar que de segunda a sexta-feira, por costume, e benção de Deus, almoçam todos em nossa casa –, quando Ana Maria anunciou o nosso plano de viagem para o dia 02 de janeiro de 2014. A reação foi instantânea. A minha nora Karine, mãe de Luca Cauê, com ar de preocupação, foi logo dizendo: − Esse trem num dá certo não! Esses meninos vão dar trabalho demais dentro do trem e vocês não vão dar conta de olhar! A minha filha Fernanda, mãe de Samuel, completou: Eu também quero ir. E Roberta, a filha mais nova, choramingou: Que pena, estarei trabalhando. Eu finalizei: Luca! Samuel! Começou hoje a contagem regressiva!
O tempo voa. Eram meados de novembro quando Ana Maria novamente anunciou: – Já comprei as passagens de trem e de avião para Jarbas, eu, Luca e Samuel e também reservei um apartamento no hotel Quality Suites, na praia da costa. Fernanda retrucou: – Êpa! Pode comprar uma para mim também. Eu vou e vou levar Heitor (1,4) – meu neto mais novo. Pedido feito, pedido atendido. Algumas horas mais tarde, nossa viagem já estava postada numa rede social, Deus e toda a torcida do Cruzeiro já sabia – obra de Ana Maria – e já surgiram alguns comentários, como o de meu primo Areovaldo que mora num sitio entre Guarapari e Vila Velha. Ele nos desejou boas vindas; outra surpresa gostosa foi o comentário de Amanda, sobrinha de Ana Maria, nos dizendo que havia fixado residência em Vila Velha, exatamente na praia da Costa e nos aguardava com ansiedade. Nair, minha Irmã, residente em São Paulo – Capital, comentou e disse que também queria ir conosco. Ana Maria ligou para ela, acertou os detalhes e marcamos de nos encontrar no hotel, vez que ela e Filogônio – meu cunhado - iriam direto de São Paulo.
No início de dezembro, começando os preparativos natalinos, Ana Maria estava arrumando o presépio sobre o móvel da sala de televisão e uma árvore de natal a um canto da mesma sala, quando Roberta chegou do serviço e disse: Mãe, a agência onde eu trabalho – ela é publicitária – vai entrar em recesso no início do ano, e o meu chefe me liberou do dia 02 a 10 de janeiro, será que dá para eu viajar com vocês? Dá sim, Ró, mas primeiro é preciso verificar se ainda é possível comprar as passagens de trem e de avião e também fazer a reserva no hotel. Vamos tentar agora mesmo, se der certo, ótimo, se não, você programa outra viagem numa excursão. Não é que deu certo! Certíssimo.
O tempo voa, mas fecha também. Começaram as chuvas no nosso sofrido Sertão Mineiro, elas serão sempre bem-vindas. Muitos municípios já haviam decretado “estados de emergência” por causa da seca que assolava todo o Norte de Minas. Enquanto na região do Vale do Rio Doce em Minas Gerais e grande parte do Espírito Santo muitas cidades foram inundadas devido às chuvas torrenciais e ininterruptas, rios transbordados, estradas intransitáveis, casas inabitáveis, famílias desabrigadas e despojadas de seus bens, e o pior, famílias dilaceradas pela perda de entes queridos, puro sofrimento e dor. Uma verdadeira calamidade pública. A tudo assistíamos pelos telejornais; inertes, impotentes, impossibilitados; restava-nos compartilhar o sentimento de tristeza e dor, rogando a Deus piedade e conforto a tantos necessitados.
Quando ouvimos no telejornal, que as viagens de trem de Belo Horizonte a Vitória estavam suspensas, devido à inundação em vários trechos da ferrovia, chegamos a imaginar cancelada as nossas férias. Contudo os dias passam e a vida continua.
Dia 02 de janeiro de 2014; a meteorologia indica sol em Minas e Espírito Santo. Diz o ditado popular “mineiro não perde o bonde”, nem trem, tampouco avião, uai! O voo de Montes Claros a Belo Horizonte estava programado para as 20h30min; às 18h45min já estávamos no aeroporto com direito a comitiva formada pelos filhos, noras, genro e netos que foram se despedir de nós.
A nossa preocupação agora era Heitor. Como seria o comportamento dele na aeronave, já que em casa, quando Roberta liga o secador de cabelo ele sai correndo com medo. Com duração de cerca de 40 minutos, e à noite, os netos mal tiveram tempo para curtir a viagem. Heitor se limitou a ficar de pé no meu colo, apontava o dedinho indicador e soltava seus conhecidos grunhidos: ã ã ã ã, que somente a mãe ousava decifrar.
Mais demorado do que o voo foi o translado do Aeroporto Tancredo Neves “Confins” até o hotel. Dado o número de pessoas (sete), a quantidade de malas (quatro) e, também por economia, optamos por fazer o transcurso de ônibus que tem parada no Terminal Rodoviário. De lá pegamos dois taxis até o hotel que fica na Avenida Amazonas, bem próxima à Praça da Estação Ferroviária. Era por volta das 22h; acomodamos as bagagens no hotel e descemos para nos abastecer num barzinho ao lado do hotel.
Às 6h já estávamos todos prontos, tomamos um café e seguimos a pé, rumo à estação ferroviária localizada no outro lado da praça. Já viu caipira andando na cidade? Exatamente igual, um atrás do outro, aquela “renca”, bom que ninguém se perdeu.
Passado o crivo das passagens e documentos dos menores seguimos para o vagão, acomodamos as bagagens e tomamos os assentos. Tudo muito bom! Poltronas duplas, confortáveis, e vagão refrigerado. Mas, somente às 7h30min ouvimos o tradicional som do apito: pooommm, poommm e zaz! Zaz que nada! Começou o “TIC TAC, TIC TAC, TIC TAC”, alçando o máximo 50 km/h, desembarcamos por volta das 22h, ou seja, cerca de 14h de viagem, sem direito a uma cervejinha gelada. Ô pecado! Contentei-me com água e refrigerantes. As primeiras sete horas, Luca e Samuel tiraram de letra, percorreram o trem de ponta a ponta, curtindo o contínuo balanço; nos entremeios dos vagões, eles paravam para apreciar a paisagem e tomar uma fresca natural, o vento lhes assanhava os cabelos; só no banheiro, esses “cabritos” devem ter entrado umas boas dúzias de vezes. Mas não era necessidade não, era malinesa mesmo. Até Heitor cansou-se de ficar na poltrona e nos obrigava a acompanha-lo vagões afora, e a cada sacolejo soltava gargalhadas de pura alegria. Depois, já exaustos de tanta estripulia, deitaram o encosto das poltronas e dormiram feito anjo. Eu disse para Ana Maria, Olha aí, os anjinhos da vovó! E, curtindo o balanço do trem, me veio à lembrança de quantas viagens fizemos no “vagão leito” do saudoso “trem baiano” de Montes Claros a Belo Horizonte; falei e cantei comigo mesmo. “Êta, trem bom! Tempo bom/ não volta mais/ saudades...”
Quanto à estadia no Espírito Santo, foi de arrepiar, mas de prazer! Nair e Filogônio já nos aguardavam no hotel. Os casais Areovaldo e Bertha - meus primos, e Alexandre e Amanda - nossos sobrinhos, despojaram-se dos seus afazeres para curtir conosco, uma maratona de “copoterofislismo”, carne espetada, piscina e muita praia. Perguntado, se a viagem valeu a pena, respondi: valeu... se valeu..., valeu e muito! Não a fizemos somente por nós, mas, principalmente, pelos nossos netos, e temos certeza, jamais vão esquecer, foi uma viagem para ficar na história, nossa e de nossos netos.
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